Musealização da tecnologia – uma área a ser explorada

Um fato interessante a ser registrado, após quatro anos colecionando peças e sua história é a dificuldade de encontrar informações relevantes sobre os fabricantes, sobre a tecnologia utilizada, sobre materiais utilizados na produção e características técnicas dos componentes.

Poucas empresas possuem registro de sua história e raríssimas possuem registro dos modelos produzidos e não encontramos nenhuma que possua dados relevantes sobre a tecnologia utilizada e informações sobre componentes e materiais.

Genericamente pode-se dizer que há grande conhecimento acumulado sobre métodos, processos e materiais utilizados na produção de bens em cada época humana. No entanto, praticamente não se encontra registros de época sobre a produção dos bens específicos.

O caso mais conhecido no mundo é o das três grandes pirâmides do Egito antigo, devido a completa ausência de registros históricos sobre a metodologia, a tecnologia, os materiais, a gestão da produção e outros aspectos relevantes na sua construção. Conhece-se muito sobre aquela brilhante civilização, mas nada definitivo sobre a construção das pirâmides que tenha sido registrado na época. Desta forma, por inexistir a informação,  teorias são criadas, inclusive as mais estapafúrdias, como a produção delas por seres alienígenas (gênios como Elon Musk não estão isentos de proferir bobagens), numa evidente injustiça por deixar de honrar as pessoas que pensaram e trabalharam na solução daquele problema.

Identifico como a primeira razão, pretérita e presente, a necessidade de manter sigilo sobre o conhecimento, para que terceiros não se apropriem dele em benefício próprio e em prejuízo dos seus desenvolvedores. Outras duas realidades estão presentes nos dias atuais. Primeiro evitar a entrega de informações sensíveis aos órgãos governamentais e segundo, o alto custo de manter pessoas treinadas, registros,  peças, componentes, materiais, equipamentos, manuais e peças que não mais serão produzidas.

Há poucos anos, quando os USA iniciaram um projeto de voltar a realizar viagens à lua, surgiram notícias que a NASA, a agência espacial norteamericana, teria extraviado os projetos do programa Apollo, inclusive do foguete Saturno V. Pouco depois foram encontrados numa biblioteca. Os técnicos constataram que a retomada da fabricação, segundo os projetos existentes, de foguetes naves e demais utilidades não poderia mais ser reiniciado simplesmente porque toda a infraestrutura de produção daquele projeto havia desparecido, inclusive muitas empresas forneceras não mais existiam.

Naturalmente o acumulo de conhecimento genérico permitiu à NASA a construção do foguete SLS e de outras apetrechos necessários para desenvolver e concluir o novo projeto de voltar à lua.

Juntando a história das pirâmides com a do projeto Apollo, sabe-se que é possível, com o conhecimento acumulado, produzir pirâmides até maiores e foguetes melhores que o Saturno V e seus componentes.

Tenho notado que a conexão da metodologia abandonada versus a utilidade presente tem causado momentos de brilho na mente dos visitantes do Museu, a sensação de saber a origem das coisas, de se conectar diretamente com um passado que se supunha inexistente.

Como contornar os três problemas: necessidade contra apropriação indébita, necessidade de se proteger contra órgãos governamentais e o alto custo da manutenção de registros e coisas que não são mais rentáveis? Não tenho solução, porém sei que os museus podem contribuir muito na preservação do conhecimento da tecnologia pretérita. A humanidade vive do passado, mas raramente percebe essa realidade.

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