Sobre coleções: dignidade, identidade e mensagem.

Tendo visitado coleções, tanto em museus, quanto coleções particulares, algumas grandes, outras modestas, um aspecto da conservação das peças tem me causado impressão. Em certas coleções, as peças são mantidas no estado em que foram adquiridas: sujas, enferrujadas, quebradas, desmontadas, com pintura corroída, com pinturas sobrepostas aparecendo, amassadas, rasgadas e etc., sofridas durante sua jornada ou, mesmo, já quando integram as coleções, sem identificação e sem história a elas relacionadas.

Uma das explicações que ouvi sobre o assunto foi gostamos de manter a peça como foi adquirida. Comparado com um cachorrinho retirado das ruas, sujo, faminto, doente e ferido, é como se mantivessem o pequeno animal naquele estado para que ficasse bem entendido por todos como ele foi encontrado. Seria muita falta de compaixão. Assim é com as peças das coleções.

Uma peça que entra numa coleção requer que receba de volta (ou sejam mantidas) sua dignidade e sua identidade. Como dignidade entendo que corresponde a, respeitando as marcas do tempo e da sua trajetória, torná-la o mais próxima possível de sua utilidade original. Como identidade, entendo que corresponde a preservar seu valor histórico, preservar o sentido e a importância que possuía a peça num determinado momento.

Dois exemplos opostos ilustram bem o assunto. Como primeiro exemplo, o pijama sujo de sangue e perfurado pela bala que matou Getúlio Vargas num ato suicida. Assim deve ser mantido (como efetivamente assim é ) no estado em que se encontrava por ocasião dos fatos. Lavar o pijama e costurar o furo causado pela bala seria como cometer um assassinato, seria tirar a potência de comunicação do ato desesperado do ex-presidente marcado naquela roupa. Portanto, a dignidade da peça é garantida pela manutenção e preservação dela assim como foi encontrada. Já sua identidade, além da preservação de suas características, é mantê-la no seu contexto (como efetivamente assim é mantida) onde o observador pode sentir a tensão daquele trágico momento histórico. É uma mensagem poderosa, mas silenciosa. Neste caso não interessa ao observador se o tecido do pijama era de algodão ou linho, se foi pouco ou muito usado.

Um segundo exemplo é o de uma balança adquirida de uma empresa recicladora de metais que se encontrava no relento, suja, enferrujada, com amassados, com o vidro-visor quebrado, com o ponteiro torto e outros problemas. Mantê-la nas condições em que se encontrava e coloca-la sob um teto não significa nada, não possui potência nenhuma, é um objeto morto, inútil. Então, como lhe devolver a dignidade e sua identidade? Neste caso, pode e deve ser feita uma interferência para retirar a sujeira, a ferrugem, os amassados, repor o vidro, consertar o ponteiro e resolver outros problemas. Sua identidade pode ser resgatada pelo que essa balança representou no período de sua utilidade, quem a fabricou, sua origem, quem a inventou, em que lugar geográfico foi encontrada (e possivelmente utilizada), que tipo de utilização recebeu, se aparece marca de algum tipo de interferência de manutenção da peça no decorrer dos anos e outros possíveis eventos que a contextualizem. Desta forma, o observador encontrará um objeto que voltou a ter dignidade, a ter uma identidade e que passa uma mensagem significativa. Neste caso não interessa ao observador quem a descartou, quem a maltratou, nem como foi parar na recicladora.

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